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Orgulho LGBTQIA+: As pessoas existiam. As histórias fingiam que não.

  • 5 de jun.
  • 5 min de leitura
Retrato em preto e branco de Gustavo Dittrichi olhando para a câmera, com uma faixa arco-íris pintada no rosto. Fotografia editorial sobre orgulho LGBTQIA+.
Crédito da foto: Dittrichi Comunicação.

Faz algum tempo, durante um processo de seleção para uma peça, uma atriz trans me fez uma pergunta que me deixou pensando por muito tempo. Ela havia sido escolhida para interpretar uma personagem cuja história envolvia maternidade e gravidez.

Então ela me perguntou: "Gu, eu não entendi por que você me escolheu para interpretar uma personagem cuja maternidade é importante para a história, sendo que eu sou uma pessoa que não tem útero."

Eu respondi de forma muito simples: "Porque você é a melhor atriz."

 

A conversa continuou, mas aquela pergunta ficou comigo. Não pela resposta. Mas porque ela me fez pensar em algo maior: quem tem permissão para existir nas histórias? Quem tem permissão para contar histórias? E por que, em pleno 2026, ainda discutimos a presença de determinadas pessoas na arte como se elas precisassem justificar a própria existência?

 

Junho é o Mês do Orgulho LGBTQIA+. Uma das coisas que mais escuto ser debatida nessa época é representatividade. O papel da arte na inclusão e na abordagem de temas LGBTQIA+ continua sendo alvo de discussões, críticas e, muitas vezes, ataques. Mas talvez a questão não seja a representatividade em si. Talvez a questão seja que algumas pessoas ainda estranham ver nas histórias pessoas que sempre existiram na vida.

 

Ter um personagem LGBTQIA+ ainda gera discussão porque muitas pessoas ainda não aceitam diversidade, e a chamam de "lacração". Mas a verdade é que pessoas LGBTQIA+ sempre fizeram parte da sociedade. O que mudou não foi a sua existência, e sim a sua visibilidade. Nos anos 80, 90 e até os anos 2000, era raro encontrar personagens LGBTQIA+ retratados de forma aberta nas grandes produções. Porque a mídia da época optava por esconder isso, seja por questões conservadoras, seja para não desagradar o público da época. E essa mídia, comandada por poucas pessoas — normalmente homens, brancos e héteros — acabava definindo quais histórias mereciam ser contadas.

 

As pessoas existiam.

As histórias fingiam que não.

 

Conforme pessoas LGBTQIA+ foram conquistando espaço na sociedade — e eu faço questão da palavra conquistar — essa realidade começou a mudar. Esses espaços não foram dados.

Foram conquistados através de muita luta, da visibilidade e da reivindicação de direitos que deveriam ter sido iguais desde o começo. O casamento igualitário é um exemplo disso. Durante muito tempo, o direito de casar era tratado como algo reservado apenas a casais heterossexuais. Não porque houvesse uma lógica justa para isso, mas porque a sociedade funcionava dessa maneira. Quando esses direitos começaram a ser reconhecidos, a sociedade também começou a mudar. E a arte mudou junto.


Gustavo Dittrichi aplica uma faixa arco-íris no próprio rosto com a mão. Retrato editorial em preto e branco sobre representatividade LGBTQIA+.
Crédito da foto: Dittrichi Comunicação.
Talvez a questão não seja a representatividade em si. Talvez a questão seja que algumas pessoas ainda estranham ver nas histórias pessoas que sempre existiram na vida.

 

Cinema, teatro, televisão, literatura e entretenimento passaram a incluir personagens LGBTQIA+ porque existe uma parcela enorme da população que sempre esteve presente e que estava cansada de não se ver nas histórias. E eu acredito profundamente no poder disso: histórias transformam pessoas. Digo isso como ator, diretor, dramaturgo e contador de histórias. Quando vemos pessoas parecidas conosco sendo representadas como seres humanos reais — não perfeitos, apenas reais — essas histórias chegam com mais força. Elas nos dizem que também pertencemos ao mundo.


Eu acredito profundamente no poder disso: histórias transformam pessoas. (...) Elas nos dizem que também pertencemos ao mundo.

 

Quando eu era criança, não me lembro de crescer vendo personagens LGBTQIA+ nas histórias. Mas eu me lembro de gostar muito de histórias sobre mulheres fortes. Não somente heroínas com superpoderes. Eu gostava de mulheres que enfrentavam as limitações da realidade delas. Mulheres que precisavam conquistar espaço. Mulheres que desafiavam aquilo que esperavam delas. Talvez, sem perceber, eu me identificasse com isso. Porque, de alguma forma, eu também me sentia fora do lugar que o mundo esperava que eu ocupasse. E eu não precisava ser mulher para me relacionar com isso.

 

A arte tem essa capacidade maravilhosa. Ela nos permite reconhecer partes de nós mesmos até em pessoas completamente diferentes de nós. E talvez seja exatamente por isso que a representatividade importa. Não para separar pessoas, mas para ampliar a quantidade de pessoas que podem ser vistas.


Gustavo Dittrichi segura uma bandeira LGBTQIA+ enquanto olha para o lado. Retrato editorial em preto e branco sobre diversidade e inclusão.
Crédito da foto: Dittrichi Comunicação.

E talvez seja exatamente por isso que a representatividade importa. Não para separar pessoas, mas para ampliar a quantidade de pessoas que podem ser vistas.

 

Mas a representatividade incomodou — e incomoda — aqueles que se sentiam em espaços hegemônicos e passaram a ver esses espaços mais diversos. "Agora até aqui?", podem pensar. "Não basta encontrar essas pessoas na vida real? Agora também no cinema? Nas novelas?" São pessoas que investem tempo, esforço e, às vezes, dinheiro, para tentar impedir que outras pessoas conquistem direitos que elas já têm por garantidos. Pessoas que lutam para impedir que a sociedade se torne mais justa e equitária. Para essas pessoas, eu faria algumas perguntas:


“O que você acha que está perdendo quando vê mais diversidade nas histórias?

Por que a existência do outro lhe parece uma ameaça?”


As pessoas serem quem elas são é uma coisa inerente. Assim como você é quem você é. Ninguém tem o direito de querer apagar quem o outro é para se sentir melhor. Se isso é um problema para você, talvez a pergunta não seja: "por que essas pessoas existem?";

Talvez a pergunta seja: "Por que a existência delas te incomoda?"

 

Porque elas vão continuar existindo. Vão continuar vivendo. E vão continuar contando histórias. E aparecendo nelas. A sociedade tem, sim, que abrir cada vez mais espaços de discussão. Tem que falar sobre esses temas nas escolas. Tem que acolher. Tem que ajudar as pessoas a entenderem orientação sexual e identidade de gênero. Para que menos pessoas sintam que precisam se esconder. Para que menos crianças cresçam acreditando que existe algo errado com elas. Para que crianças em famílias preconceituosas possam encontrar em ambientes escolares algum tipo de auxílio e refúgio, sem cogitar tirar as próprias vidas.

 


Eu gostaria que uma pessoa lesse este texto daqui a vinte anos e achasse tudo isso estranho. Que ela perguntasse: "Sério que as pessoas debatiam sobre isso?". Porque a minha esperança é justamente essa: que um dia a diversidade deixe de ser um debate; não porque ela desapareceu, mas porque finalmente se tornou algo tão normal quanto sempre deveria ter sido.

Eu acredito num futuro em que o tema LGBTQIA+ seja abordado apenas como mais uma característica da obra. Em que um personagem LGBTQIA+ seja apenas mais um personagem como os outros. Um futuro em que isso não gere debate. Porque, quando a gente fala de inclusão, inclusão verdadeira, a gente está falando de equidade para todas as pessoas.

Gustavo Dittrichi sorri com os olhos fechados e uma faixa arco-íris pintada no rosto. Retrato editorial em preto e branco sobre orgulho LGBTQIA+.
Crédito da foto: Dittrichi Comunicação.
Minha esperança é justamente essa: que um dia a diversidade deixe de ser um debate; não porque ela desapareceu, mas porque finalmente se tornou algo tão normal quanto sempre deveria ter sido.

 

E volto à pergunta da atriz do começo do meu texto: "Por que eu?"

Porque somos atores e atrizes.

E atores e atrizes fazem isso.

Contam histórias.

Nós interpretamos pessoas diferentes de nós o tempo todo. Nós interpretamos reis, assassinos, mães, deuses, heróis e pessoas completamente diferentes de nós o tempo todo.

 

Mas aquela pergunta me fez perceber uma coisa: existem lugares onde ela ainda não encontra essa realidade.

E isso me fez pensar sobre qual futuro eu desejo.

Eu não quero um futuro em que pessoas trans só possam interpretar personagens trans.

Eu não quero um futuro em que orientação sexual ou identidade de gênero sejam critérios que limitem artistas.

Eu quero um futuro em que essas características sejam apenas isso: características. Nem mais. Nem menos.

Pessoas LGBTQIA+ não precisam pedir permissão para existir.

E também não precisam pedir permissão para existir nas histórias.

E também não precisamos pedir licença para ninguém para contar nossas histórias.

Estamos aqui, e não vamos a lugar nenhum.



Foto do autor do artigo Gustavo Dittrichi, ator, diretor, dramaturgo e produtor cultural.

GUSTAVO DITTRICHI é Diretor Criativo e Produtor Executivo da Lusco-Fusco Entretenimento. Ator, diretor, dramaturgo, produtor cultural e jornalista. Há mais de duas décadas atua na criação de projetos em teatro, audiovisual e comunicação, explorando narrativas sobre arte, cultura, comportamento e sociedade.



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